terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Cicatrizes

Observo ascenderem já com calma
As salinas detentas do desgosto
Que silentes me rolam pelo rosto
Ao fechar das janelas de minh'alma

Hoje só posso ver as cicatrizes
E do fogo escaldado a fumaça
No semblante a dureza da desgraça
Que outorga engenho aos infelizes

Nesse peito cerrado a cadeados
Sentimento esquecido, ressecado
Como o chão de um lugar onde não chove

Logo vai dar lugar à luz, à graça
Porque sabe que o tempo logo passa
E que a crise é existência que se move

Thiago Andrade

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Fluidos

Gelo, neve, água... (Hieronymus Von Prag)

As coisas são fluidas.
O mundo, as pessoas, a vida...
Fluido.
E assim, nessa dialética, hoje sou o que não era.
Hoje não sou o que serei.
Tampouco sou o que queria ser.
Sigo, (humano que sou) vivendo num turbilhão de emoções, efêmeras, fluidas.
Emoções fortes, é claro, com seu caráter marcante. Mas fluido.
A felicidade, a eterna busca do existir, a esperança apriorística do bem final, não tarda a demostrar seu caráter natural, universal, fluido.
Tem lugar, então, nesse palco, o sofrimento.
Sofrimento este que abala, que machuca, que desola. Sofrimento que tira a esperança.
E que cega o homem, escondendo a sua face... fluida.
E então, à visão de um sorriso, ressurge a chama da esperança, do alento.
E o ciclo torna ao início, porque a felicidade é um fogo-fátuo. Fluido.

Thiago Andrade

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Onírica Destrudo

Do senhor do meu sonho manifesto
Ouço a voz vaga e dura a me dizer:
"É a morte a razão de se viver
De tal jugo ninguém será liberto!"

Hoje atinjo, exangue, o alto cume
De uma vida que fere sem motivo
Mas às pedras me atenho e sobrevivo
Ao vazio, da faca ao duplo gume

Um desejo infernal me bate a porta:
"Vou fazer-me assim como a folha morta
De árvore centenária e decaída"

Mas desperto. A coragem me alivia
Por saber que, através da poesia
Posso dar clara luz à amarga vida

Thiago Andrade

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Retrato de um Louco

Chaminés da fornalha da loucura
Protetoras de um "eu" fragilizado
Dois joelhos fiéis de um pobre diabo
Flectidos por sobre a tábua dura

Sua rica libido objetal
Que em reais objetos investia
Se recolhe. Prefere a fantasia
A aceitar realidade que faz mal

Escravo de um senhor bibliático
Por delírios levado a transe extático
Seu presente mentor lhe toma aos braços

Não há inconsciente que não goze
No espinhoso caminho da psicose
Cega fé corresponde a largo passo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Materno Desamor

Mulher cansada
Que de repente
Violentamente
Aos gritos pela criança é acordada

Na sua jornada
Mãe que não ama
Que aos deuses clama
É pelo ressentimento apedrejada

Clamor tão triste
Da que é forçada
Por ser amada
A ver um sentimento que inexiste

Pegado ao seio
Bebê se cala
Mas 'inda fala
Que p'ra prejudicá-la ao mundo veio

Filho imperfeito
Que do seu lado
Se retirado
Não vai trazer saudade ao duro peito

Ao rio lançado
Mesmo afogado
Ressoa o brado
De um pobre e inocente injustiçado

De volta ao leito
A consciência
Por penitência
À própria vida atenta sem efeito

Deseja a morte
Mas se apercebe
Que não consegue
Matar-se a si - sujeito duro e forte

Carrega o peso
Como legado
De ter matado
Rival que era em si fraco e indefeso.

Thiago Andrade

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Degradado

Rodeado de paz num ventre vivo
Minha terra de perene bonança
Ilha onde só se dorme, nutre e dança
E onde gozo de tudo que preciso

Mas expulso do lar à revelia
Minha etérea existência é degradada
A morada tornara-se apertada
Viver lá já não mais suportaria

Pelo estreito canal me passa o corpo
Caminhando a tornar-se neonato
Meu umbigo, meu último contato
Perco em meio a enorme desconforto

Só uma coisa almejava: amenizar
Essas tais sensações de amargo gosto
Transformei-me em perverso polimorfo
Procurando o prazer reencontrar

Hoje, quando deixei de ser criança
Em neurose, sabor, sexo e riso
De um dia tornar ao paraíso
Sobrevive a insana esperança.

Thiago Andrade